Blog do Antonio Farinaci

Documentário investiga a exploração de mineral usado na fabricação de celulares e sua ligação com a guerra civil do Congo

O coltan (ou columbita-tantalita) é um mineral largamente utilizado na fabricação de celulares, videogames e outros aparelhos eletrônicos. Nos últimos anos, o Congo se tornou um dos maiores produtores do mundo desse mineral, que é também conhecido como “ouro azul”. Entidades de direitos humanos, no entanto, apontam que a produção do coltan tem financiado trabalho escravo infantil e a guerra civil no país (e traçam um paralelo com a exploração dos famosos “diamantes de sangue”). Esse é o tema do documentário “Sangue no Celular” (“Blod i Mobilen”, Dinamarca, 2010), do diretor Frank Piasecki Poulsen, que esteve no Congo em 2008 e investigou as condições de trabalho nas minas ilegais do país.

“A primeira vez que eu subi a montanha na beirada da mina de Bisie, vi uma cratera de 800 por 500 metros, e era como o inferno na Terra. É impossível descrever esse cenário de pesadelo e sofrimento”, conta o diretor em entrevista ao site do Instituto de Cinema Dinamarquês (DFI). “Cerca de 25 mil pessoas, em sua maioria crianças e adolescentes, trabalham na mina de Bisie. Ninguém envelhece lá. E tudo é caríssimo. Você tem que pagar por proteção, abrigo, por ferramentas de trabalho, e, é claro, por comida e bebida. Uma cerveja custa 12 dólares, um refrigerante custa 7. Crianças e jovens vão pra lá achando que vão ganhar um dinherio rápido, mas são engolidos por um sistema em que o custo de vida é tão alto que eles não conseguem mais ir embora. Eles ficam aprisionados”, conta Poulsen.

Para o diretor, grande parte da responsabilidade pela existência dessas minas ilegais do Congo pertence a empresas que compram o coltan produzido lá. O diretor afirma ter passado mais de um ano tentando entrar em contato com a Nokia, por exemplo, para saber a posição oficial da empresa e nunca recebeu resposta. Finalmente, ele foi até o escritório central, em Espoo (Finlândia), onde conseguiu meia hora de entrevista. “Eles são os fabricantes do celular que eu uso, e eu queria ter certeza que não estou financiando trabalho infantil escravo”, diz Poulsen no filme. “Infelizmente, é impossível saber, pois a empresa não rastreia de onde vem o minério usado; e, se a Nokia, que é fabricante de um terço dos celulares do mundo, não faz isso, que dirá as outras empresas do setor”.

Depois do lançamento do filme, a Nokia emitiu um comunicado, afirmando que passaria a informar a procedência do coltan usado em seus produtos. “Infelizmente, o comunicado indica que eles estão tentando colocar a culpa em sua cadeira de fornecedores. Para uma companhia que diz ter responsabilidade social, isso simplesmente não é suficiente”, pondera o diretor de “Sangue no Celular”.

Atualmente, o site internacional da Nokia não revela quem são seus fornecedores de coltan, requisito considerado fundamental por ONGs que atuam na tentativa de proibir o uso industrial do coltan proveniente de áreas de conflito. A empresa afirma vagamente em uma página entitulada “supply-chain” (cadeia de fornecimento) que tem um compromisso ético com o meio ambiente e com valores humanitários, e “espera” que seus fornecedores ajam da mesma forma.

“Sangue no Celular” está na programação do festival de documentários É Tudo Verdade, em São Paulo e no Rio. Veja abaixo as datas em que o filme será exibido:

02/04 – 23h – Reserva Cultural (sala 4) (Avenida Paulista, 900, Tel.: (11) 3287-3529)
03/04 – 19h – Reserva Cultural (sala 4) (Avenida Paulista, 900, Tel.: (11) 3287-3529)
07/04 – 18h – Espaço Museu da República (Rua do Catete, 153, Tel.: (21) 3826-7984)
09/04 – 20h – Espaço Museu da República (Rua do Catete, 153, Tel.: (21) 3826-7984)

Veja também:

Site oficial do filme: http://www.bloodinthemobile.org

Veja abaixo o trailer do filme:

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